Sexta-feira, 10 de Setembro de 2004

Não sei se ainda acredito em alguma coisa

África. Uma pequena aldeia no interior de um desses pequenos e pobres países formada quase de um dia pera o outro com refugiados. Uma mãe embala uma criança de seis anos, com ar de ter apenas 3 aninhos. Canta uma música que já a mãe dela cantava por a ter ouvido à avó. Nem mãe nem criança, como quase todos os outros dentro desse campo, não comem nada que não seja erva à uma semana. Água só a da chuva. A criança acorda vê o rosto da mãe e sorri. Diz-lhe que tinha sonhado que havia sítios com casas muito grandes cheias de prateleiras com comida. Que havia sítios onde homens fardados não atacavam as aldeias e matavam quem não era da tribo deles. Que havia sítios onde as crianças tinham brinquedos e riam. A mãe sorrio deu-lhe um beijo na cabeça e disse-lhe para dormir que ela cantaria um acanção bonita. E a criança sorrio também tornou a adormecer e teve tempo para mais um sonho andes de o coração parar de bater e antes de a mãe, sentindo que o corpo nos braços jazia já sem vida, o pousar docemente no chão depois de lhe dar mais um beijo, levantar-se e dirigir-se, apesar dos gritos de chamamento das outras pessoas, para o terreno minado à volta do campo.


Num país ocidental os senhores da guerra que destroi este país Africano sentam-se a uma mesa para conversações. Vestem fatos Pierre Cardan. No pulso um Rolex e no bolso do casaco um acaneta Mont Blanc. Os políticos desse país ocidental foram receber à porta estes senhores da guerra. Apertaram-lhes as mãos e sorriram perante o disparar das máquinas fotográficas da imprensa.


 

publicado por maratonista às 16:37
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Quinta-feira, 9 de Setembro de 2004

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Na pista, onde se larga por vezes mais do que simples suor.


Ele tinha acabado de treinar na pista. Tinha lá deixado bastante suor e algumas forças. Agora apenas fazia alguma ginástica, para descontrair, junto ao gradeamento das escadas quando ela se apróximou. Enquanto esperava por uma amiga que tinha ido conversar junto às bancadas ela encostou-se ao colchão do salto à vara. e ele ficou a pensar se deveria ir falar com ela. Pode ser que ela tivesse notado o quanto os olhos dele a seguiam sempre que ela estava presente. Mas não, é demasiado tímido. Afinal de contas o que é que lhe iria dizer? Que quando ela corria era poesia em movimento? Que sentia vontade de acariciar-lhe o rosto ternamente? Que tinha vontade de desmanchar-lhe o cabelo com as mãos? Que gostava de deixar um beijo no percing junto ao umbigo?


Não. Pensou na frase que o tenente-coronel Slade dizia no filme Perfume de Mulher: "I'm too fucking old" o problema é que não era "too fucking blind" e tinha que olhar para ela, desejá-la e ficar quieto. Acho que o medo de o acharem rídiculo foi o que o fez deixá-la descer para os balneários sem lhe falar.

publicado por maratonista às 16:02
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Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004

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Batidas do coração ao ritmo do comboio.


Quando o comboio arrancou a rapariga que ia sentada junto à janela nem se deu conta, mergulhada que estava nos seus pensamentos. Tinha-a visto entrar no compartimento e dar uns bons dias meio sumidos como se o que se passava à sua volta só muito esbatidamente lhe chegasse ao pensamento. E ali continuava, encostada para trás com os braços cruzados e a cabeça pendendo para baixo, imersa no seu mundo interior. Perguntei-me o que lhe passaria pela cabeça, era um arapariga nova, 20 e poucos anos, uma pequena mala, que tinha colocado no espaço superior, para isso indicado, do compartimento era toda a sua bagagem. Finalmente levantou o olhar, e olhou pela janela, mas era um olhar sem ver, como se o que busca-se não fosse ver mas apenas descansar o olhar em algo diferente que os sapatos. Quando o comboio parou noutra estação ela levantou-se do lugar para espreitar para fora da janela como se espera-se algo acontecer e ali se manteve até o comboio partir de novo. E uma vez mais se foi sentar, encostada para trás e com os braços cruzados, sobronho franzido e olhar fito na biqueira dos sapatos. Um casal entrou no compartimento, provávelmente tinham entrado na estação que acabaramos de deixar, e, conversando alegremente, foram sentar-se perto da rapariga. Quando a rapariga reparou no casal eu comecei a perceber alguma coisa. Aquela alegria toda, que para outra pessoa poderia ser contagiante, para ela era algo de ofensivo. Depois da reação inicial voltou, apesar de tudo, à sua atitude inicial, quase de casmurrice, de braços cruzados e olhar fixo nos sapatos. Pouco depois o comboio começa a travar e a apitar repetidamente. Ainda estavamos longe da próxima estação e intrigado espreitei pela janela. A algumas centenas de metros estava um carro na linha e um rapaz junto dele. Quando o comboio parou, a uns escassos 20 metros do carro o rapaz veio ao longo do comboio, com dois funcionários da CP furiosos atrás dele, até parar junto à nossa janela. Olhou para a rapariga e disse:


Não vás, Fica. – ao mesmo tempo tirou um anel do bolso e mostrando-o à rapariga perguntou: - Casas comigo?


Palavra que nunca vi ninguém mudar tão depressa de expressão: És mesmo maluco! – exclamou enquanto se debruçava na janela para o beijar.


 PS- alguém se lembra do anúncio televisivo a um carro de marca francesa(julgo que o 205) parecido com a parte final desta estória..

publicado por maratonista às 14:23
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Sexta-feira, 3 de Setembro de 2004

Lá a ver se o Sapo deixa postar isto. Desgraçado batráquio.

Hoje sinto-me no meio de um filme.


Coitado do Ribeirinho. Está apaixonado pela Tatão e ninguém lhe tira isso da cabeça. Bem tentamos faze-lo esquecer mas nada. Ontem levámo-lo ao Ricks, Café American, em Casablanca, para ver umas miúdas que por lá param, mas nada. O Ricks, homem batido, bem tentou dar-lhe conselhos mas nada. Ainda pôs o amigo negro a tocar ao piano "As time goes by" a ver se ele animava mas aquilo tava mal. O problema é que ela parece que anda metida com um "cavalheiro da industria" e ele já o ameaçou de que lhe punha à perna o Bud Spencer e o Terence Hill. Também não havia problema, o meu amigo Bruce Lee disse que lhes dava um desempeno que os punha a ganir no deserto, e o John Wayne disse que os enfoercava na primeira árvore, mas isso nós achamos demasiado violento. Já numa outra perpectiva a minha amiga Emanuelle diz que sabia como tratar do assunto. Levava-o de fim-de-semana para uma ilha deserta e mostrava-lhe o que era bom. Ela diz que gosta de consolar homens carentes. Mas não sei não. O rapaz é complicado, é tímido e um pouco dado à humidade nos olhos. Não que eu me possa rir, estava na janela do prédio em frente quando a Brigitt Jones começou a cantar, já meio tocada, o "all by mi self" e deu para sentir um nó na gargante. Mas voltando ao Ribeirinho, alguma coisa tem que ser feita, senão o rapaz ainda dá cabo da leitaria que tem com o pai o Vasquinho. Quem sabe talvez apresentar-lhe uma brasileira. Vou ver se encotro o nº de telefone da Tieta ou melhor ainda da Gabriela. Como hipótese última, mas mesmo última porque não sei no que vai dar, vou tentar marcar-lhe encontro com uma rapariga que está, todos os dias, no pontão a olhar o mar. As más linguas chamam-lhe a amante do tenente francês mas são mesmo más linguas. Aquele brilho no olhar não mente, ela é inocente.

publicado por maratonista às 19:42
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Na 1ª página do Público d'hoje, a fotografia da crise dos reféns na escola russa diz tudo. Um soldado russo, provavelmente duma força de elite. Uma criança ao colo. Uma expressão de vazio. Já nem ter capacidade para exprimir algo mais que desânimo.
publicado por maratonista às 10:49
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Quinta-feira, 2 de Setembro de 2004

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Proximidade


Naquela praça, vazia de gente, o sol ardia nesse mês de Agosto. Duma ruela lateral apróximou-se uma mulher e sentou-se, junto à paragem das camionetas, sobre a mala que trazia. A solidão no rosto, a tristeza no olhar, dizia que aquela não era apenas uma viagem mais. Tive receio de ser inconveniente e não me aproximei, fiquei na sombra, observando. Quando a camioneta apareceu ela levantou a cabeça e olhou em volta, quase surprendida nos seus pensamentos, procurando com o olhar. Nada. Quando subia para a camioneta olhou uma vez mais, desta vez era um último olhar, quase em suplica. Mas das paredes de pedra não saiu nenhuma voz, nenhum humano gesto a impediu de entrar. E a camioneta seguio viagem.


Uns dez minutos depois, mais do que isso não foi de certeza, um homem aparece na praça em andamento rápido e olha em volta. Não vê ninguém  e baixa os ombros, desalentado. Apróxima-se da paragem de olhos no chão, como se procura-se vestígios, restos, da passagem de alguém. Ali fica, largos minutos (e mais uma vez eu não me aproximei), antes de ir embora com o rosto fechado num ricto de dor e estupefacção.


E o silêncio volta à praça, mas não por muito tempo. Da sombra de uma portada lateral sai uma pessoa. É uma outra mulher. Nos seus lábios baila um sorriso, perverso, de satisfação. Segue no caminho que o homem tomou ao sair da praça, levando um caminhar ligeiro. E mais uma vez eu não me aproximei, não saí da sombra e ali fiquei.

publicado por maratonista às 16:00
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Quarta-feira, 1 de Setembro de 2004

Isto saiu assim, um bocado de rajada

Vou por aí à procura


do coração que entreguei


faz-me falta, no peito,


sem ele não sei sentir


 


Vou por aí à procura,


à muito que o não vejo,


o desgraçado ficou preso


no olhar em que me perdi


 


Do coração que entreguei


só resta o lugar vazio,


e o palpitar assustado


quando um rosto aparece,


 


Faz-me falta, no peito,


para sentir outros olhares


e neles ver sonhos,


pressentir paraísos,


 


Sem ele não sei sentir,


e eu preciso sentir


um coraçao dentro do peito


vou por aí à procura

publicado por maratonista às 15:57
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Saiu, tanto com a Visão como com o J.L., um livrinho com cem poemas de Sophia. Custa 4 euros, eu sei, mas vale a pena. E já acordou uma musa que me espicaçou.
publicado por maratonista às 15:47
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Desculpem mas o mundo hoje foi atacado com gaz de riso.


Estou a rebolar de riso.


Ouvi agora na rádio: José Castel Branco (sim esse!) é parente afastado do Bush.

publicado por maratonista às 11:25
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Ha, ha, ha. Esta é das boas.


No Público d'hoje, secção Cartas ao Director, o leitor Rui Mota acaba a carta assim:


"Porque conheço a Holanda - um país democrático, tolerante e moerno - posso, no entanto, assegurar que não são de recear quaisquer retaliações da parte do seu governo ou dos seus cidadãos. Caso um dia o sr. ministro da Defesa e do Mar pense visitar Amesterdão ou os seus famosos clubes será sempre bem acolhido".

publicado por maratonista às 09:50
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