Terça-feira, 12 de Outubro de 2004

Não me agradam "remakes" mas não engeito continuações

Ricks - Café American II


New York. 1964. Passando em frente à Tiffany's, Ricks olhando para dentro, como sempre à procura de uma cara bonita, pareceu-lhe ter visto um rosto conhecido. Mas foi coisa de um momento e continuou em direcção ao centro de Manhatan onde tinha um jantar marcado no Oaks Room com um possível investidor para a sua ideia. Ele propunha-se montar um clube dentro do tipo do saudoso Cotton Club, com os melhores artistas de jazz e blues e umas garotas à mistura. A ideia soava ao próprio Ricks como um pouco maluca, afinal de contas a tensão social e política que existia podia criar problemas a quem fosse considerado um pouco mais à esquerda, e ele chegara a estar na guerra civil espanhola pelo lado republicano. Mas a ideia, assim como o perigo era bastante atractiva e por isso ele foi em frente.


Quarenta minutos depois da hora aprazada Ricks, olhando para o relógio, chegou à conclusão escusava de contar com este investidor. Acabando de beber o Wiskey de aperitivo olhou em volta e reparou num  grupo de seis pessoas que estava numa mesa no meio da sala. Uma das vozes pareceu-lhe conhecida, trazia-lhe lembraças de outros tempos. Pensou, por momentos, em dirigir-se ao grupo mas como já tinha  a noite meio estragada resolveu ficar quieto. Pediu o jantar. No final, quando se dirigia para a porta ouvio uma dizer o seu nome. Mesmo antes de se voltar, e com um nó na garganta, Ricks já sabia quem o tinha chamado. A voz dela era inconfundível. - Olá Ilsa, como estás? perguntou. - Vou bem, disse ela, quero saber como vais, vamos-no sentar, disse apontando para umas cadeiras na entrada.


Já sentados Ricks perguntou - e o Victor, como vai? - Não sabes (a cara dela denunciava surpresa) o Victor morreu o ano passado. Enviei-te uma carta, disse ela. -Mudei à dois anos de residência, explicou ele, com quem é que estavas a jantar? -Com os meus dois filhos e demais familia, disse ela, mas diz-me que aconteceu depois de Casablanca? - Simples. Não podia ficar ali depois de ter morto o major nazi, mesmo com a protecção do meu amigo o capitão Renault, da polícia francesa. Lembras-te dele? -Sim, disse ela, contínua. . Bom, vendi o café aquele comerciante árabe, o Ferrari. E fui para a Guiana Francesa com outro nome mas isso já lá vai. Agora estou por cá. -E o nosso pianista favorito, perguntou ela docemente, ainda toca de vez em quando As Time Goes By? -Não morreu à dois anos, e aqui Ricks tinha o semblante turvado, memórias. Os seus dois filhos são meus sócios num bar.


E o silêncio imperou entre eles durante um ou dois minutos. Então ela, levantando o braço, afagou-lhe a face onde as rugas denunciavam não só a idade mas tambem os acontecimentos que tornavam a sua vida numa autêntica novela. Ele pegou na mão dela e levou-a aos lábios com paixão. Levantaram-se, ela enfiou o seu braço no dele e saíram para a rua onde Dezembro já trazia alguns flocos de neve.


 

publicado por maratonista às 19:41
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Segunda-feira, 11 de Outubro de 2004

Sonho azul

Era para te ter encontrado no sonho passado, mas tu faltaste. Eu sei que virei na esquina certa, que me sentei no banco do costume. Mas tu não apareceste. Gostava de saber como virias. Se de bluejeans e com uma camisa aos quadrados vermelhos, sem maquilhagem e a cheirar apenas a sabão ( e que bom essa mistura do teu cheiro com o do sabão), a convidar-me para um passeio pelos campos floridos de uma primavera longínqua; ou com essa clássica saia e casaco justos (tão sofisticada, tão misteriosa, tão Coco Channel), com um perfume, que só noto ao beijar-te, e que me embriaga, a dizeres-me: -vamos ao Ritz.


Mas tu falhaste o sonho passado. Ali estava eu entre brumas, sem nada que me capta-se a atenção. Onde estavas? Terias ido ao sonho de outro? E se foste será que lhe provocas o mesmo efeito que provocas em mim? Essa necessidade de te apertar nos braços e proteger-te de tudo quanto possa anuviar os teus pensamentos, de meter a mão nos teus cabelos e afagar. Fico com ciúmes, admito, que possas provocar tal sentir noutro sonhador. Fico apenas esperançoso que faltaste porque te perdeste no nevoeiro que habita os meus sonhos. Eu que nem a cor do teu cabelo sei. 


Quando o rádio-despertador me acordou, às oito horas como de costume, na Antena 1 a Né Ladeiras cantava Sonho Azul, uma das minhas músicas preferidas.

publicado por maratonista às 11:24
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004

Livros a ler

No JL, desta quinzena, há vários artigos, recensões, sobre livros que vale a pena adquirir.


Quantas Madrugadas Tem a Noite de Ondjaki, escritor angolano. "Esta cidade é fodida então, se for branco a correr tá a fazer gnástica, se for mulato tá atrasado, mas se for um puro mumbo, quer dizer,  tem que ser ladrão. Não pode ser atleta, empresário, distraído ou maluco? Ladrao? Cor da pele, avilo? Porra, num te conto..."


A Descoberta do Mundo de Clarice Lispector. "Até que o ruído familiar entra pela porta e o menino, mudo de interesse pelo que o poder de um menino provoca, pára de chorar: mãe. Mãe é: não morrer. E a sua segurança é saber que tem um mundo para trair e vender, e que o venderá. É mãe, sim é mãe com fralda na mão"


DIA POR AMA de Ana Calhau e Eduardo Prado Coelho. - Ana Calhau: "Nunca saberia como morrer antes de ti, é-me vedada por condição a possibilidade de olhar esse impossível. Aqui não vejo a cegueira. Tornei-me cega, constato. Se alguém gritar que a minha terra não será nunca a não ser da água, escreves o meu nome no lume?" - Eduardo Prado Coelho responde "Lanço-me em direcção a ti como num trapézio em que espero que as mãos de um outro me segurem. Se um dia não estiveres, podes ficar com as minhas mãos depois da queda - é preciso que alguém te percorra os cabelos com os dedos."

publicado por maratonista às 11:58
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Cidadania

Acho que Portugal inteiro tem o direito de saber.


Com quem falou Paes do Amaral antes de este falar com Marcelo Rebelo de Sousa?

publicado por maratonista às 09:30
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Gaivota

Título Sentada, numa rocha próximo ao mar, está a sereiazinha.


Sub-título As escolhas que se fazem marcam-nos para o resto da vida, sejam elas boas ou más.


 A rapariguinha, sentada em cima de um fardo, no cais junto ao porto, estava a chorar. Não que fosse óbvio esse choro, chorava de mansinho. A gaivota tinha andado a caçar um ou outro peixe que às vezes caí dos barcos de pesca e agora tinha pousado e andava a cirandar pelo cais. Quando parou junto à rapariguinha ficou parada a olha-la interessada. Pegando na bolsa que trazia tirou um bocado da sandes e deitou-o à gaivota. Esta apenas debicou sem grande vontade. Então a gaivota abriu o bico e falou. Pode ter sido alguma alucinação provocada por um golpe de sol mas a rapariga ouvio a gaivota perguntar:


Porquê essas lágrimas? Dói-te alguma coisa?


Ainda supreendida a rapariguinha respondeu-lhe – Dói-me o coração, a alma.


Porquê? - Perguntou a gaivota – explica-te.


O meu namorado deixou-me. Não gosta mais de mim e eu não consigo viver com isso.


E porque é que estás aqui – peguntou a gaivota.


Estava a pensar atirar-me à água – disse a rapariga.


Que absurdo – disse a gaivota. A água está muito fria, porque é que queres fazer isso?


Assim talvez ele tivesse pena de mim.


Mas tu queres que ele goste de ti ou que tenha pena de ti? É que não é a mesma coisa.


Não sei – disse a rapariguinha.


Olha rapariguinha bonita – disse a gaivota – eu também sinto às vezes um sentimento de vazio dentro de mim, mas sei que tenho que ultrapassar isso, melhores dias virão.


E ficaram mais algum tempo a conversar findo o qual a gaivota encostou a cabecira nos joelhos da rapariguinha, como num adeus, correu e levantou voo. A rapariguinha ainda ali ficou alguns minutos. Depois soltou um suspiro e levantou-se afastando-se na direcção da cidade.


Alguns meses mais tarde quando estava na discoteca conheceu um rapaz engraçado e dançou o resto da noite com ele. Quando saíram trocaram números de telemóveis( e também um beijo) e marcaram encontro para outro dia.


Antes de se ir embora ele disse-lhe – Sabes eu acho que na outra vida já fui gaivota.

publicado por maratonista às 09:20
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Quarta-feira, 6 de Outubro de 2004

ao correr da pena

Ontem, 5 de Outubro, como de costume todos os anos nesta data, a comunidade de corredres de fundo do norte dirigiu-se para Ovar a fim de fazer uma meia-maratona. E como de costume lá estavam os clubes de corredores amadores com nomes patuscos. Deixo-vos aqui alguns desses nomes de clubes que por todo o país calcorreiam as estradas:


Os cansados, Os falta d'ar, Os Kágados, Os Rompe solas, Afis-Atletas de Fim de Semana(organizadores sdesta corrida), Os Zatopekes (em honra do corredor desse nome, da ex-Checoslováquia, chamado de "a locomotiva humana"), Os   Arras-Kinha, Os Arrastões (o logotipo é um atleta a correr com uma espetada na mão).


Enfim tudo nomes que representam a filosofia do corredor de pelotão: correr a sorrir.


.....................................................................


À tarde, via a televisão e, ao passar pela Sic-Muher, apanhei uma entrevista da Oprah a um a familia de actores irmãos afro-americanos, Wayanes, em que eles contam como era a mãe deles, uma daquelas mulheres extraordinárias. Num episódio contado por um o pai tinha dito ao professor que se ele se portasse mal lhe poderia bater e em chegando ele a casa a chorar, depois de apanhar, a mãe foi furiosa ter com o professor pedindo-he explicações. Ele contou-lhe que o pai tinha dado autorizaçao para lhe bater ao que ela lhe respondeu que o filho era dela porque fora ela que tinha passado 16 horas a por cá fora a criança. o pai apenas o fizera, e que quando o marido tivesse um filho então podia autorizar o professor a bater nesse filho. "Ganda" Mulher.

publicado por maratonista às 10:29
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004

"...porque os desafinados também têm coração"

Hoje é o dia mundial da música. Após uns dias de pausa decidi, através de um pequeno e mal amanhado conto, prestar a minha homenagem a essa arte única, capaz de por os nossos corações aos saltos.


Era uma pequena banda duma casa do povo no interior do país. Normalmente os instrumentos eram cuidadosamente arrumados, depois dos ensaios, num pequeno quarto junto ao salão nobre. Um dia aconteceu, o ferrinho tinha sido mal arrumado e tinha caído no chão, um pequeno encontrão de uma pessoa num armário, a queda deste por cima do ferrinho e a consequente entortadela num dos lados do ferrinho. Resultado: passou o tocar desafinado. Para a orquestra já não servia mas encontraram-lhe uma finalidade. E assim, a meio dos ensaios, servindo-se um pequeno "lanche" aos músicos da banda, o brasileiro, encarregado pela junta de preparar os "comes e bebes", entrava pelo salão nobre dentro e fazendo soar o ferrinho cm pancadinhas gritava "boia".


Aconteceu que o ferrinho, que ficava pousado numa cadeira perto dos instrumentos de corda, apaixonou-se pela viola braguesa. Que querem, são coisas que acontecem. Mas a menina, embora não sendo de todo arisca, disse-lhe que nem pensar. Olha olha, logo com um instrumento desafinado. E enpinando o nariz virava-lhe as costas. E o ferrinho andava por ali meio entortado por dentro e por fora, é que mesmo a tocar só para chamar para o "lanche" aquele soar era tristonho.


Um dia algo de terrível aconteceu. Um curto-circuito numa tomada provocou um fogo no quarto de arrumo dos instrumentos. Acudiram a tempo mas alguns instrumentos de madeira ficaram muito danificados. A viola braguesa foi um deles. Com uma boa parte da caixa torcida pelo fogo o som já não era grande coisa. Dinheiro para consertar era um problema e assim ela foi afastada dos concertos da orquestra, apenas servia para a prática dos membros mais novos da banda.


Claro que todo o orgulho e desdém da viola braguesa tinham caído por terra. Agora também ela era desdenhado por outros instrumentos. E assim, aos poucos, foi aceitando os avanços do ferrinho. A última vez que espreitei para dentro do quarto vi o ferrinho enfiado no braço da viola com esta a pender a parte superior do braço, muito ternamente, para o ferrinho.

publicado por maratonista às 19:47
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