Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2004

Final de ano

Ontem foi a corrida de S. Silvestre em Braga. Partidas às 9H30 e 10H00 da noite com um frio de rachar. Como dizia uma transeunte muito espantada por nos ver a correr no centro da cidade - "É um pouca vergonha, homens feitos a andar de calções à noite, com as pernas ao léu". Resultado, hoje estou com a garganta um pouco arranhada.


Bom, 2005 à porta. Não peço riquezas. Não tenho desejos por viagens. Nunca fui de me armar em conquistador de beldades. Para além do desejo de um mundo melhor, o que é que eu quero?


Eu apenas quero ser feliz.


Para todos: que 2005 seja melhor que 2004 e que os sonhos aconteçam.

publicado por maratonista às 19:30
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Quarta-feira, 29 de Dezembro de 2004

A Beleza

Umberto Eco decidiu pegar o touro pelos chifres e escreveu uma História da Beleza (Difel). Pegando no assunto o Jornal de Letras decidiu fazer da Beleza o tema principal da sua edição no nº 893. Diversos artigos de gente ligada às artes, história e filosofia mas não é isso que eu trago para aqui. O que aqui vos deixo são algumas respostas expressas num inquérito feiro pelo JL.


Pergunta: Dê um exemplo ou indique uma imagem, um objecto, uma figura que, para si, consubstancie ou ilustre esse conceito de beleza.


Rui Lage (Poeta e tradutor): Há uma obra de Alberto Giacometti chamada Mãos segurando o vazio (objecto invisível), de 1934. Trata-se de uma figura feminina esculpida em bonze, com um rosto geométrico, estático, alienígena, que segura nas mãos um objecto que não se vê, ou lhe foi retirado...Se o objecto está ausente, significa que ele pode ser qualquer coisa, qualquer entidade. Isso é o sublime.


Teolinda Gersão (Escritora): ...há um bordado que encaixilhei e transformei em quadro, para o preservar melhor dos estragos do tempo, e poder passá-lo a outras gerações. O bordado é uma arte menor e a autora uma mulher comum: chamava-se Rosa Emília, era minha trisavó e não ficou na História. No entanto o ramo de flores, bordado a vermelho sobre linho gosso, é um imenso trabalho de paciência e rigor, e o resultado é belo. Gosto de olhá-lo e de pensar que todo este trabalho não foi inútil. A sua presença alegra-me, e sei que não serei a última a desfrutá-lo, provavelmente também outros o acharão belo, quando também eu tiver desaparecido.


Olga Roriz (Coreógrafa): Os olhos da minha filha. Uma casa em ruínas. Uma sombra na parede. A neve que nunca vi. Um beijo ao canto do bar. A linha do horizonte.


Jorge Martins (Pintor): Posso citar..."O belo é o primeiro grau do terrível", de Rilke.


Em todas estas respostas existe, nelas próprias, beleza. Por mim indicaria apenas os olhos da minha mãe quando sorriam para mim, era eu pequenino.

publicado por maratonista às 11:57
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Terça-feira, 28 de Dezembro de 2004

Terça, 28

Aquele texto de um Natal diferente não me saiu grande espingarda, não estou a falar do tema mas da maneira como ficou. É o que dá começar a escrever às nove da manhã e só acabar já feita a digestão do almoço. E mais não digo.


A blogosfera tem estado um pouco parada nesta quadra e ainda bem. É sinal que as pessoas tem que dar e receber atenção em tempo real, isso é bom.


Quando saio do estádio ao fim do dia, depois de mais uma sessão de treino, tenho por habito ouvir no autorádio a RDP2. Como melomano que sou é uma alegria ouvir um programa chamado Ritornello (espero que a grafia esteja correcta). Lá tenho ouvido gravações históricas que me deliciaram. Um dia destes deram-me uma notícia interessante: em Fevereiro vão fazer uma emissão a partir do Brasil e ao saber disso a viúva do grande tenor lírico português Tomás Alcaide (1901-1967), que deduzo que vive no Brasil, mostrou interesse em participar na emissão. Estou "em pulgas" para ouvir a emissão até para ter a oportunidade de ouvir obras da chamada música ´clássica de raiz brasileira.

publicado por maratonista às 20:01
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Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2004

Um Natal diferente

Natália saiu de casa, fechando a porta à chave. Duas voltas como de costume que os tempos não estão para descuidos. Hoje 24 de Dezembro resolveu passar o Natal de outra maneira. Vivia sozinha. Depois do marido morrer os filhos ainda tentaram que ela viesse viver com um deles mas ela foi peremptória – nem pensar. Com 64 anos ainda estava com forças e energias suficientes para fazer a sua vida. Ia ver os netinhos quase diáriamente – eram a sua paixão. De resto levava uma vida normal de pessoa independente.


Enquanto seguia avenida acima reparou, por duas vezes, em deserdados da fortuna que se abrigavam do frio em cantos de prédios com pedaços de caixa de cartão a fazer-lhes de cama e cobertor e sentiu um angústia na alma. Eram gente que tinha amado, trabalhado e tido uma vida em tudo iguál aos outros, só que azares da vida os tinham atirado para esta situação. Quando ela e o marido eram novos também tinham passado privações e ela lembrava-se de que uma altura houve em que não tivesse sido uma providêncial ajuda amiga nem para comer teriam tido. Agora passou tudo, resta-lhe a memória.


Os natais passados com a familia embora com o prazer de estar com os filhos e netos deixa-lhe sempre um pouco de sabor amargo pela falta do seu marido. E assim este Natal decidiu-se por algo diferente.


Batiam as sete da tarde quando chegou ao largo da Misericórdia e entrou no casarão. Tirou o casaco, pendurou a carteira e juntou-se aos outros no grande salão. Este ano ia passar a consoada e o Natal a distribuir uma refeição quente aos desabrigados. Quando, com uma grande travessa nas mãos, se apróximou das mesas sentiu a alma mais aquecida. Estava feliz.

publicado por maratonista às 14:49
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Segunda-feira, 20 de Dezembro de 2004

Gatos

Estou a escrever este post com uma gatinha de poucos meses no colo. Filhota da gata dos vizinhos, de início era arisca mas agora quer é festinhas e sitio quente parase deitar. É claro que escrever este texto no portátil está a tornar-se numa tarefa mais complicada pois a gatita quer a todo custo brincar e parte para cima do computador pousando as patas no teclado. Isso quando não está a brincar com o fio do rato. A raça desta gatita é a mais divulgada, mistura de gata vadia com gato de não se sabe donde. Listada e a ficar um pouco para o gordito. Pois, come em casa da dona e chega aqui está a comer outra vez. Acabo por pensar que ela deve julgar que a nossa casa é uma extensão da casa dos donos. Aliás os gatos, como animais extremamente independentes que são, e ao contrário dos cães, afeiçoam-se à casa e não aos donos. Olha agora atirou-se a um fio de eléctricidade...fui tirar-lhe o brinquedo não fosse ficar electrocada.


Em tempos tivemos um gato siamês. Alguém abandonou esse gatito, ainda bébé, e o meu irmão pegou nele e levou-o para casa. Na altura acabou por ficar com um nome engraçado. Entrando numa loja, o meu irmão ouviu um nosso imigrante referir-se a determindado aparelho como Bideu (pronúncia à Porto), achando graça  decidiu que em homenagem aos nossos imigrantes o gato assim se chamaria - bideu. Muito nos rimos. Esse gato quando cresceu era bem grande e chegava a correr com cães o nosso quintal. Não tinha era muito jeito para subir às arvores e por várias vezes lá tivemos que o ir buscar.


Bom, por hoje este post fica por aqui que está na hora da paparoca.

publicado por maratonista às 19:55
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Quinta-feira, 16 de Dezembro de 2004

Memorias II

Souselas. A poucos quilómetros de Coimbra, creio que agora é vila mas não tenho a certeza. Na minha meninice era aldeia e a minha familia materna tinha lá casa. Isto foi antes de lá ser instalada a cimenteira (e eu não consigo perdoar aquele desgraçado que era gozado no contra-informação por champoulimão; que vá arder no inferno que eu não esqueço do choque que foi ver os telhados das casas, os quintais e os campos cobertos por pó de cimento).


Lembro-me de finais de verão, com as férias grandes a acabar, e ver passar os carros de bois carregados de cachos de uvas das vindimas e nós miúdos a correr atrás deles, trepando por eles para tirar doces uvas. Nunca nenhumas outras uvas me souberam tão bem. Lembro-me de ir brincar com os outros miúdos, descalço como eles para ser um igual, e a minha avó a gritar-me para calçar os sapatos.


O rés-do-chão da casa dos meus avós antes tinha sido um lagar mas, depois de um trabalhador lá ter morrido afogado no mosto por ter desmaiado com os vapores, o meu avô, homem sensível, resolveu acabar com o lagar. Encontrando-se dividido, o rés-do-chão foi alugado a duas pessoas, de um lado ficou uma oficina de bicicletas, do outro um sapateiro. Gostava de ficar largos tempos a vê-lo trabalhar. Benfiquista ferrenho, com galhardete pendurado na parede e uma águia de porcelana em cima do armário, ficava a discutir com o carteiro, outro benfiquista ferrenho, os feitos da equipa e o valor dos seus jogadores. O carteiro, que se deslocava na primeira bicicleta motorizada que eu vi, daquelas originais com o motor sobre a roda da frente, tinha junto ao guiador uma bandeirinha do benfica. Desconfio que muitas vezes as acabava a ronda muito mais tarde por causa dessas discussões.


Às vezes, com os meus cinco ou seis anos, chamava o meu cão, o rim-tim-tim, atravessava a aldeia e subia até os montes circundantes onde existiam antigos moinhos em ruínas. Gostava de andar ali no alto em contacto com a natureza e aperceber-me da vastidão do mundo e o quanto somos pequenos. Bons tempos.

publicado por maratonista às 11:42
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Terça-feira, 14 de Dezembro de 2004

Crónica I

Vindo de casa, percorria a rua até ao cruzamento de ruas onde ficava o Centro Recreativo do Bairro Marechal Carmona; aí ficava parado a pensar para onde iria. Ir ao centro ver cinema não dava que estava sem cheta (a mesada só foi inventada, em Portugal, muito depois do 25 de Abril). Seguia em frente e descia até passar a linha da Lousã. Depois seguia pela avenida do Brasil até à baixa da cidade, até pôr os olhos no meu amado Mondego. Se fosse verão teria tomado outro caminho, iria até à zona da Lapa onde, com mais uns quantos miúdos e jovens, mergulhavamos no rio do alto de duas ou três árvores, e nadávamos no pequeno braço de água em que o Mondego se tornava no Verão (daí o ser cognominado de basófias). Pensando hoje, no tempo que nesses dias passavamos metidos dentro de água, chego à conclusão de que devíamos ser meio arraçados de patos.


Não sendo verão seguiria então até à baixa da cidade. Voltas pelas ruas a ver as pessoas, rostos e labores. Nas idades jovens a nossa cabeça é uma autêntica esponja, os sons e as cores entravam em catadupa dentro de nós e estavamos sempre ansiosos por mais. Talvez segui-se pela 31 de Janeiro até ao cimo e desse uma volta pelo Jardim da Sereia, no Outono as folhas de algumas árvores adquirem tonalidades de castanho e vermelho lindíssimas. Só muitos anos depois é que soube que ali existe uma das raras colónias de sapos-parteiros da europa. Ou então, ao cimo da avenida viraria à direita em direcção à zona universitária e entraria no jardim botânico (criado por Avelar Brotero) onde os meus olhos se iriam deliciar com espécies exóticas de árvores e flores. Lembro-me de coqueiros que davam uns cocos pequeníssimos.


Saindo do jardim continuaria até ao Calhabé, atravessaria a linha da Lousã, agora em sentido contrário, fechando assim o círculo. Indo até casa, no meu quarto esperava-me o Conde de Monte Cristo, obra em quatro tomos, de Dumas, que eu reli vezes sem conta ao longo da minha meninice e juventude.

publicado por maratonista às 14:37
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Segunda-feira, 13 de Dezembro de 2004

Segunda

Mais uma segunda. Não me queixo de ser segunda, primeiro dia de trabalho da semana. O que faço até é razoavelmente interessante, e a companhia também não é má. O que é então?
Que gosto é este na boca, sabor a pouco, sabor amargo, insabor. Que é que faz com que este dia não seja apenas mais um, nem melhor nem pior, nem feliz nem infeliz? Que inquietude, que ânsia é esta? Terá sido por ela ter pintado o cabelo e ficar ainda mais linda, desejável?
Às vezes estas coisas são um cavalo à solta no pensamento, atropelando decisões tomadas antecipadamente e deixando-nos desnudos perante a realidade. Quietos quando essa mesma realidade nos esbofeteia na cara. Já não sei se chove lá fora ou se sou eu que me sinto a escorrer pelas pedras da calçada. Sentimentos como águas residuais a serem conduzidas para alguma estação de tratamento.
publicado por maratonista às 16:20
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Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2004

Almeida Garret

Pois é minha gente, hoje passam 150 anos que morreu Almeida Garret. De seu nome completo João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garret, ele foi o restaurador e grande impulsionador do teatro em Portugal. Dele, deixo-vos aqui duas coisas. Para começar: o primeiro parágrafo das Viagens Na Minha Terra, com a ortografia do início do século vinte(Empresa Lusitana Editora - Calçada do Ferregial, 23 - Lisboa):


"Que viage á roda do seu quarto quem está á beira dos Alpes, de Inverno, emTurim, que é quasi tam frio como San'Petersburgo - entende-se. Mas com este clima, com este ár que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o proprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até ao quintal."


E a seguir poesia: Barca Bela



  • Pescador da barca bela

  • Onde vais pescar com ela,

  •                 Que é tão bela,

  •                 Oh pescador?


  • Não vês que a última estrela

  • No céu nublado se vela?

  •                 Colhe a vela,

  •                 Oh pescador!


  • Deita o lanço com cautela,

  • Que a sereia canta bela...

  •                 Mas cautela,

  •                 Oh pescador!


  • Não se enrede a rede nela,

  • Que perdido é romo e vela

  •                 Só de vê-la,

  •                 Oh pescador.


  • Pescador da barca vela,

  • Inda é tempo, foge dela,

  •                 Foge dela

  •                 Oh pescador!

 

publicado por maratonista às 19:42
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2004

Adão

Conheci o Adão. Costumava ficar sentado na mesa do canto duma taberna ali para os lados de Mazagão. Não todos os dias, era só de vez em quando. Aí pelas 10 da noite ele entrava, silenciosamente cumprimentava todos com um aceno de cabeça, dirigia-se para a mesa do canto e já sentado olhava para o dono e pedia, com um gesto da mão, um bagaço.


Como disse, ele costumava ficar calado independentemente das discussões que por ali iam acontecendo; afinal de contas que interesse podia ele ter em discutir clubes de futebol (e nisso tem toda a razão), partidos políticos e respectivas maneiras de actuar ou, num outro tipo de conversas como de onde vinha o dinheiro de fulano ou como sicrano administrava a sua empresa. Não, ele não entrava nas discussões, via-se, de vez enquando, levantar um pouco a cabeça, por algo que foi dito lhe causar algum interesse mas só isso.


Mas um dia aconteceu. Numa roda de homens, volta e meia as mulheres vêm à discussão. Quando as opiniões se começaram a dividir reparei que o Adão estava bem atento, uma ou duas vezes quase a abrir a boca para falar. Às tantas, um desses indivíduos ressabiados a quem os copos a mais fazem passar das marcas com o que dizem, virou-se para o Adão e disse-lhe:


- A culpa toda é tua. Nunca devias ter dado ouvidos à Eva. Afinal renuncias-te ao paraíso por causa dela o que foi uma parvoíce, trocar o paraíso por uma mulher. Puff.


E o Adão levantando-se disse-lhe, enquanto se dirigia para a porta:


- Por um beijo dela eu renunciaria à eternidade.

publicado por maratonista às 11:14
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