Segunda-feira, 28 de Fevereiro de 2005

Desporto democratico

Estive à pouco a discutir com um amigo acerca da democraticidade no desporto. Ele defendia que o seu desporto favorito, o futebol, era o mais democrático pois todas as camadas da sociedade gostavam e se interessavam por ele.
Pondo de lado a questão de chamar de “democrático” algo pelo simples facto de ser comum a todas, ou quase todas, as pessoas (democracia é uma forma de governo), há esse conceito de que são os assistentes ao evento desportivo que funcionam como caução para esse conceito. Eu discordo. Penso que é o evento em si, com tudo quanto existe à sua volta, que deve servir como meio para aferir se á mais ou menos “democrático”. E cito um exemplo daquilo que considero um desporto ”democrático”: a próxima realização da meia-maratona de Lisboa. Passo a explicar.
Vai ser um evento desportivo com milhares de pessoas a participar activamente. Lá estarão a correr os 21.100 metros homens e mulheres; gente con 18 anos e gente com 70 anos; operários, advogados, industriais, medalhados olimpicos, desempregados, reformados, donas de casa, militares, étc.; gente com um elevado nível físico e deficientes. Ali não haverá decisões tomadas por outrem que influenciem o resultado final (há o doping como em todas as competições desportivas que impliquem dinheiro, mas isso é outra história). Se alguém só chegar à meta 6 horas depois da partida terá lá alguém da organização para registar a chegada e dar-lhe abastecimento e quando a classificação geral for públicada ele estará lá registado.
Outros exemplos?
No final dos anos 80 na maratona de Nova Iorque um dos concorrentes era um deficiente motor que só andava e em passinhos pequenos. Com o acordo da organização ele começou a prova pouco passava da meia-noite do dia do evento e só chegou à meta pelas 23 horas. Tinha à sua espera a aplaudi-lo, além de elementos da organização para registar o facto e o tempo, os vencedores masculino e feminino da prova, um queniano de que não me lembro o nome e a grande campeã Gretz Waitz.
É já comum aparecer nas maratonas em solo americano um pai que faz a maratona a empurrar a cadeira de rodas do filho vitima de poliomelite. Ambos tem o mesmo nº de dorsal e óbviamente são dos atletas mais aplaudidos ao longo da corrida.
publicado por maratonista às 15:51
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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

do Público de hoje

A reter neste começo de sexta-feira do jornal Público. Primeiro uma notícia insólita:
Parece que os pastores suiços davam "cannabis" às suas vaquinhas para melhorar a qualidade do leite. Azar. As autoridades suiças fizeram uma lei a proibir isso, de maneira que a partir de 1 de Março as vacas, cabras e ovelhas helvéticas também estão proibidas de ficar "pedradas".

Agora, isto tem mesmo muita graça. Os vereadores da coligação PSD-CDS na câmara de Famalicão votaram favoravelmente uma proposta, do presidente da câmara eleito pelo PSD, de voto de congratulações pela vitória de José Sócrates. E os vereadores do PS votaram contra!

E para acabar mais uma crónica de João Benard da Costa. Imperdível. Ela trás-nos um exercício à volta da memória (a crónica chama-se A solidão da memória) e não vos conto nada, leiam-na que vale a pena. Apenas para recordar que o homem é o único animal que cora.
publicado por maratonista às 10:28
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Terça-feira, 22 de Fevereiro de 2005

Revista Única do Expresso

Da revista ÚNICA, do Expresso, retiro 3 artigos que valem a pena.

Inês Pedrosa , na sua Crónica Feminina, escreve sobre o caso de Carlos e Camilla. Do preconceito instituicionalizado que leva a que o facto de ela ser mais velha (só um ano) que ele e de não ser nenhuma beleza faça as pessoas atacarem esta união. Inês Pedrosa escreve “Se fosse 17 anos mais nova, a música seria outra: mostrengos de dentadura à banda anilhados a jovens de tenra idade é o que não falta por esse mundo, real ou plebeu – e toda a gente acha muito bem.” ”Mas que um homem de 56 anos anuncie o seu casamento com a mulher de 57 anos que amou a vida inteira, isso é um escândalo.” “No fundo, no fundo, é isso que a maioria frustada e rancorosa não aguenta: que alguns seres humanos consigam escutar a voz do grande amor, e segui-la, por atalhos e escarpas, até ao fim dos seus dias.”

Clara Ferreira Alves, no Pluma Caprichosa, trás-nos Arthur Miller falecido à pouco. Por exemplo : “O homem sempre teve um jeito especial para mulheres e foi casado com a mais triste e bela de todas, Marilyn Monroe.”. Fala-nos também da sua mais conhecida peça, Morte de um Caixeiro-Viajante que, lembro aqui, a RTP nos tempos em que produzia teatro, e do bom, gravou (penso que a tem gravada) esta peça representada por actores portugueses (dos bons e não destes artistas de telenovelas arrebanhados em função da carinha larouca e do corpo de encher o olho) nos idos anos setenta. Seria uma boa altura para tirá-la da prateleira.

Carla Hilário Quevedo, no Bomba Inteligente, fala-nos de Lupicínio Rodrigues, brasileiro, “...inventou o chamado samba «dos de cotovelo». A curiosa designação vem da postura adoptada por quem chora pelo amor perdido, colocando os cotovelos num balcão de um bar enquanto afoga as mágoas nums quantos copos de cachaça.” . Quantos de nós já não fizemos isso: afogar no álcool e na poesia os males da caixinha das emoções. “Lupicínio Rodrigues ganhou dinheiro com as namoradas que lhe fizeram mal. Trata-se de uma justa compensação e da vingança perfeita. Resta-me agradecer às megeras, ao sofredor talentoso...”.
publicado por maratonista às 16:45
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Sexta-feira, 18 de Fevereiro de 2005

Post para encher e a atirar para o cultural

A reter do JL nº 896


de Guilherme d'Oliveira Martins, A paixão das ideias:
"...Luis Reis Torgal perguntou-se sobre as razões pelas quais a palavra cidadão é prestigiada, enquanto a palavra político anda pelas ruas da amargura. Afinal, ambas as palavras significam o mesmo, têm apenas origens diferentes, uma latina e a outra grega. Referm-se igualmente à cidade e à participação social."


de Alexandre Pastor, Carta da Suécia:
"Os sem-abrigo...esses mortos-vivos são os únicos seres do nosso tempo que ainda nos olham com olhares imaculados. «O mal tem asas, e o bem avança a passo de carcol», escreveu Voltaire."
"Paul Valéry tinha razão ao definir a política: «É a arte de impedir as pessoas de se imiscuirem naquilo que inteiramente lhes diz respeito»."


de Onésimo Teotónio Almeida, Times & Tempos:
"(Mickey Spillane pôs uma vez um protagonista de um dos seus romances policiais a beber cerveja e, quando um crítico lhe elogiou a consciência social por fazer os seus herois tomarem bebidas comuns, o escritor declarou que primeiro escrevera cognac mas sobrevieram-he dúvidas ortográficas e não tinha um dicionário à mão)"


Um bom fim de semana para todos e no domingo façam-me o favor de portarem bem.
(Juro-vos, estou mortinho para que chegue a segunda-feira e ver a guerra civil rebentar no maior partido do governo. Vai ser cá uma peixeirada que nem vos digo)

publicado por maratonista às 19:51
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Quarta-feira, 16 de Fevereiro de 2005

balancete do dia

Ontem não vi o debate. Sei muito bem quem não quero lá.


Vinha agora a ouvir no progama Ritornello, na Antena 2, uma entrevista à viúva do tenor português Tomás Alcaide. Hoje passam cento e quatro anos desde o seu nascimento. Tive o prazer de ouvir uma gravação em que Tomás Alcaide, no papel de Duque de Mantua na ópera Rigoletto de Verdi, canta "La donna è mobile" (A mulher é volúvel).


Trago agora uma novidade. Já está aí à venda o livro "O Corvino Carlos G. Nascimento, Co-Arquitecto das Letras Chilenas" do chileno Vásquez de Acuña, penso que a edicção é da Direcção Regional da Cultura dos Açores. E quem foi Carlos G. Nascimento? Perguntam vocês e com razão, eu também nunca tinha ouvido falar dele. De onde tiro esta notícia, o JL, obtenho o esclarecimento. Carlos Gorge do Nascimento foi um emigrante corvino (da ilha do Corvo, Açores) que emigrou para o Chile. Ali fundou a mais poderosa editora do chile, Editorial Nascimento, onde publlicaram os mais importantes escritores. É bom indo sabendo destas notícias: gente nossa que lá longe se tornaram importantes e marcaram a vida de outros países. E neste particular caso é mais um contributo para o conhecimento e estudo da diáspora açoreana.

publicado por maratonista às 19:41
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Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 2005

Num caffé de Vienna

Estamos em 1870. Em Viena, num pequeno caffé, acabam de entrar dois homens. Um ainda novo na casa dos vinte anos e outro mais velho na casa dos sessenta. Sentando-se a uma mesa e pousando a bengala, encastoada a prata, sobre uma cadeira ao lado, o homem mais velho, Franz de seu nome, levantou a mão e chamou pelo criado para fazerem os pedidos. Pediram ambos chocolate quente e, enquanto o pedido não chegava, instalou-se algum silêncio entre eles. Franz estava imerso em pensamentos e Joshef, o homem mais novo e sobrinho de Franz, respeitou aquele momento. Tinham vindo da apresentação de um novo pianista na cidade e Joshef tinha reparado como, após o concertante ter tocado a sonata Op. 111 de Beethoven, o tio tinha ficado noutro estado. Estava mais calado, mais metido com os seus pensamentos. O empregado trouxe os pedidos e depois de beber dois ou três goles do chocolate Franz começou s falar.
- Sabes, eu conheci Beethoven.
- Sim tio? Como foi isso?
- Um teu tio-avô era amigo dele. Professavam ambos as mesmas ideias políticas. Levou-me, creio que em 1824, a assistir aos ensaios da nona sinfonia. Era algo absolutamente fantástico. Beethoven, já surdo, a dar as indicações dos tempos e andamentos aos músicos, duas vezes, e eles a seguirem com autêntica veneração, sem protestar. E olha que estes músicos eram a nata dos músicos de orquestra a nível mundial.
- É natural, estavam perante uma grande figura, o grande Ludwig.
- Ah! Mas ele, naquele final de vida, já não era a grande figura que dominava os outros apenas com o seu porte. A vida tinha-o quebrado muito. Primeiro foi a sua paixão Antónia Brentano, a «imortal bem-amada» a decepciona-lo, depois a morte do irmão Kaspar. Finalmente o golpe de misericórdia: Napoleão, que ele admirava como revolucionário que era, auto-proclamou-se imperador. Sabes o 4º e último andamento da nona, Ode à Alegria (An die Freude), estava originalmente para se chamar Ode à Liberdade. Furioso Beethoven mudou o sentido à frase, cantadas têm quasi o mesmo som. Mas, não me perdendo, aquilo que te queria contar e que aquele concerto que ouvimos me trouxe à memória (talvez por ser a mais perfeita sonata chamais feita) era a estreia na nona. Havias de ver Beethoven, surdo, a dirigir a orquestra. Já a orquestra tinha acabado os últimos acordes do 4º movimento e Beethoven ainda estava a dirigir, foi preciso vir um auxiliar vir virá-lo para o público. O teu tio-avô, chamava-se Joshef como tu, pegou-me por um braço e disse – levanta-te quando bates palmas, está ali um deus da música. Só então eu, que tinha ficado tão fascinado com a força daquele 4º andamento que nem reparava no que se passava à minha volta, reparei que estava toda a gente de pé, aos gritos de “bravo, bravo”. Muitos com lágrimas nos olhos.
O mais novo conservou-se em silêncio, respeitoso.
Vi-os sair pouco depois. Apenas mais duas pessoas em conversa num caffé de Viena.

publicado por maratonista às 19:39
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14 de Fevereiro

Este início de 2005 está a ficar definitivamente de loucos. A Myryan e a Aragana (ligação para os blogs ali ao lado esquerdo) parecem estar a querer ir embora. Dois corações magoados e logo hoje dia dos namorados.
Tenho nos ouvidos uma canção de Roy Orbisom: Pretty woman, mas é possivel que lá para o fim do dia nos ouvidos (na cabeça) esteja a ouvir She de Elvis Costello.
publicado por maratonista às 10:51
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Quinta-feira, 10 de Fevereiro de 2005

Eu falo a rosa

Eu falo a rosa, vejo a cor
de sangue dos teus lábios
nos teus olhos

vejo ilusão (ansia de ilusão)
nas palavras atiradas (arrancadas)
no fogo do momento
são pedras de sonho
que calcetam passeios
de sentimento recalcado.

Falo rosa (diria agora cravo)
vejo cor, porque vermelho
é a cor do sangue
do coração, morango de sabor
na ilícitude do beijo.
publicado por maratonista às 14:32
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2005

sinónimos e metáforas

Revista LER, Nº 65.
Onésimo Teotónio Almeida contou, na mesa-redonda final com que encerrou o encontro Correntas d'Escritas do ano passado na Póvoa de Varzim, este caso:
"Era uma testemunha a descrever um caso de violação sexual, na linguagem comum na tasca da sua aldeia. O juiz decidiu impor decência na sala: «Para relatar actos vergonhosos desses, a testemunha deve usar sinónimos e metáforas!» E o homem lá prosseguiu, resignado: «Pois foi então nessa altura que eu vi o réu pegar no sinónimo e metê-lo na metáfora.»
publicado por maratonista às 11:01
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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005

Uma história vulgar

Saindo do Campo da Vinha e em chegando ao largo onde está a igreja do Carmo ele virava à direita e seguia pela rua até ao Largo dos Penedos, aí virava novamente à direita entrando na rua dos Chãos. A meio da rua atravessava-a e entrava na Cabanelas, sentava-se numa mesa e pedia um copo de vinho branco seco. Ficava cerca de dez minutos bebendo o copo, colocava o pagamento sobre a mesa e saía. Descia pela rua até ao Banco de Portugal, atravessava a rua e grande parte da Avenida Central indo sentar-se num banco de jardim. Tirava um pequeno embrulho do bolso, feito de papel de jornal, abria-o deixando ver um bocado de pão que cortava aos pedacinhos e atirava para as pombas que por ali andavam.
Do outro lado da avenida o guarda Duarte observava de sobrancelha ligeiramente franzida. A seu lado o sub-chefe Vicente, já reformado, com quem tinha estado a trocar duas palavras, reparou na atitude e perguntou-lhe –O que que há?
- Aquele tipo todos os dias às seis da tarde vem para aqui senta-se naquele banco, sozinho, sempre no mesmo banco, e está ali durante meia hora a dar pão aos pombos. Há ali qualquer coisa que não bate certo, diz o guarda Duarte.
- Ah!, exclamou Vicente, tu só estás aqui em Braga à quatro anos, não é? Eu vou-te contar! Aquilo foi uma tragédia.
- Que é que aconteceu?
- À oito anos atrás aquele tipo trabalhava numa tipografia, logo ali abaixo do Campo da Vinha. Saía às seis e esperava vinha até ao Largo dos Penedos onde se encontrava com a namorada. Ela trabalhava numa fabriqueta textil que ficava numa garagem a poucos metros dali. Seguiam até ao Cabanelas onde ficavam sentados a conversar, ele bebia um copo de branco e ela um sumol. Quando saiam dali vinham sentar-se naquele banco onde ficavam a namorar durante algum tempo. Depois ela ia apanhar o autocarro para casa do outro lado da avenida e ele ficava ali no banco até o autocarro desaparecer, só indo embora depois.
- Uma história vulgar. Ela deixou-o?
- Não, não. Nada disso. Eles já tinham tudo programado. Casavam-se em Junho e mudavam-se para uma casa velha ali em S. Victor. O que aconreceu foi, como te didde uma tragédia. Um dia tinha ido ela para a paragem do autocarro e ele ficou ali à espera como de costume. Foi então que um autocarro desgovernado avançou pela paragem dentro matando quatro pessoas e ferindo outras oito. Ela foi uma das que morreu e ele estava ali, a ver tudo a passar-se à frente dos seus olhos. Tás a ver não é? É natural que ele se passa-se um bocado.
- É verdade. Pobre tipo. Como é que o autocarro avançou asssim? Aqui é terreno plano.
- O motorista disse que ficou sem travões.
- Sabe sub-chefe, eu acho é que deviamos fazer testes do balão a estes motoristas.
- Isso é verdade.
E foram afastando-se deixando o homem entretido a dar pedacinhos de pão às pombas.
publicado por maratonista às 14:43
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