Vinha a subir a colina, manhã cedinho, à minha frente dois miúdos de 7/8 anos a caminho da escola. Uma carrinha para junto ao passeio, sai um fulano e dirige-se às traseiras. Quando levanta a porta traseira escapam dois patos pelo passeio a cima. Depois foi ver a cena do homem que apanhava um e corria atrás do outro e deixava escapar o primeiro, isto praí durante 3/4 minutos. Os dois miúdos parados a apreciar e sai uma pérola. Vira-se um para o outro: Olha, o Zézinho, o Luizinho e o Huguinho (os sobrinhos do tio patinhas) a jogar à apanhada.
No JL nº 904, já aí nas bancas, na última página, vem uma pequena autobiografia de Carmen Dolores (para além de grande actriz que mulher espantosamente linda ela era, aliás ela é nos seus oitenta). O interesse que há nas autobiografias, para além de um melhor conhecimento do biografado, está nas memórias que ele tem de outros que o influenciaram. No presente caso Carmen Dolores fala sobre o pai, o jornalista brilhante José Sarmento, e das suas memórias. desde o contacto com o Presidente da República António José de Almeida, passando por Raul Brandão, seu colega de liceu, ou Fialho de Almeida, Bulhão Pato, Gomes Leal até à colaboração com Eça de Queiroz. E a maneira como isso a influenciou nas leituras e na formação como actriz e passo a citar:Então, depois de estas todas deambulações pelo passado eu corria às estantes à procura deste e daquele autor referido e vivia já todos aqueles dramas e era todas aquelas personagens, mesmo não pensando sequer vir a ser actriz!
Cármen Dolores conta também que foi com emoção que, ainda durante a guerra fria, visitou em Moscovo a casa em que Anton Tchekov (nas suas palavras: o seu mais amado dramaturgo) tinha o consultório (agora museu). Deixo-vos os dois últimos parágrafos da autobiografia:
E como nota final: quando representamos num palco, os nossos «serões» são partilhados com o público. Estabelece-se uma permuta de sentimentos.
E se esse público se entrega, se sabe ouvir e sentir, em comunhão com o autor e os actores, ajudados pela visão do encenador, todos sairemos mais ricos, para melhor viver a vida do dia seguinte.
José-Augusto França vai publicar (já aí deve estar nas livrarias) um romance que tem como principal personagem Eça de Queiroz e as suas aventuras por Angers (França). É baseado numa fotografia em que Eça aparece com o irmão Alberto e uma jovem senhora que ninguém conhece. Esse romance, intitulado A Bela Angevina, parece-me, pelo pequeno trecho trazido a público no JL nº 903, um verdadeiro achado. Interessante nisto tudo e que José-Augusto França nos conta num artigo sob o título Cartas Persas é que ele próprio tem uma ligação a Angers visto a sua mulher ser angevina de várias gerações tendo os pais tido bodas no Hotel du Cheval Blanc... . Hotel du Cheval Blanc onde Eça de Queiroz se hospedara nos finais do século dezanove sendo o célebre conto O Mandarim sido lá escrito, datado de Julho de 1880.
Habituei-me às sextas-feiras a ler a crónica que João Bénard da Costa tem no jornal Público; A Casa Encantada. Hoje, junto com mais uma crónica imperdível, vem a notícia de que vai ser atirado para o domingo.
É pá, estou chateado. Para mim o fim-de-semana começava sempre à sexta-feira de manhã com a leitura da sua crónica. Assim encurtam-me o descanso. Eu sei que "ninguém sexta toda a vida e que aos 17 anos já se tem tamanho para vestir de domingueiro" (17 anos de crónicas de JBCa começar nos primeiros tempos do Independente) mas mesmo assim...bolas! Deixo-vos o último parágrafo da crónica...para abrir o apetite:
"E um dia, enfeitiçado, já estava de novo em Lisboa, como se nada se tivesse passado e como se não tivesse estado a fazer de Caronte, à proa de uma gôndola entre os dragões de Carpaccio e os anjos músicos do Bellini de San Zaccaria. Esta é a vida de hoje? Não, esta foi a minha vida de ontem, o dia dos impossíveis acontecidos.
Mas não era sobre isso que eu venho falar mas sim de uma coincidência. Fernando Ka, num artigo intitulado Discriminação racial ou os novos velhos do Restelo, em que responde a críticas feitas por Rui Pena Pires a um anterior artigo seu, Os negros no país de exclusão racial, fala das "reações negativas nalgumas pessoas que insistem teimosamente que em Portugal não há racismo". Exactamente ao lado (daí eu falar de coincidência, Eduardo Paulo Coelho na sua coluna O fio do horizonte escreve sobre Paul Ricoeur, pensador francês que morreu na sexta-feira passada. Deixo-vos apenas um pequeno trecho: "...só existe para nós um tempo que seja um tempo narrado, e que a história de cada um de nós, a nossa identidade, é a narrativa que contamos aos outros (e a nós mesnos) do que nós próprios somos. Como qualquer narrativa, é feita de bifurcações e indeterminações...E vai mostrar que o sujeito se define, não pela sua mesmidade, mas por um conceito mais dúctil, que é a sua ipseidade ("Ele próprio como um outro").-"
Quem será o pianista? Esta história de um ser humano que é encontrado a vaguear junto ao mar, sem memória e que só comunica através da música é tocante. Mais uma vez a realidade ultrapassa a ficção.
Ouvido na rádio este fim-de-semana, numa conversa do prof. Amaral Dias com um jornalista acerca de uma crónica de Rosa Mantero, creio que no El País:
A cena passa-se no refeitório duma universidade alemã. Uma rapariga loura, uma alemã de cepa, leva o tabuleiro da refeição para a mesa, pousa-o e repara que se esqueceu da sobremesa. Deixa o tabuleiro em cima da mesa e vai buscar a sobremesa; quando chega à mesa vê um estudante de origem africana a comer do seu tabuleiro. Ficando de início furiosa decide, no entanto, levar as coisas por outro caminho utilizando a psicologia. Senta-se em frente ao rapaz e começa a conversar com ele enquanto vai tirando comida do mesmo tabuleiro e comendo. Tudo se passa normalmente e quando estão a acabar ela repara que na mesa por detrás do rapaz está um tabuleiro com comida e sem ninguém. Repara também que na cadeira junto a essa mesa está o seu casaco. Não me vou alongar acerca do caso na sua vertente xenofoba, o estudo psicológico ao comportamento da rapariga dava pano para mangas. Fica uma constatação: a de que o rapaz não disse nada quanto ao facto de ela estar a tirar comida do tabuleiro dele. E fica uma pergunta: o que terá ele ficado a pensar acerca daquela rapariga alemã?
No Courrier Internacional que está aí nas bancasvem uma história catita.
Então é assim: a mexicana Maribel Dominguez joga futebol oficial numa equipa masculinas do seu país. Devido aos seus dotes de goleadora é chamada de "Marigoal". Devido às suas qualidades a federação mexicana autoriza qua jogue pela equipa nacional mexicana. O problema vem depois, a FIFA veta a sua integração numa equipa masculina.
Desculpem lá ó senhores da FIFA mas isto (se me desculpam a expressão) é revelar uma grande falta de tomates.
Vinha agora do estádio e no autorádio, sintonizado na Antena 2 para ouvir o Ritornello, passaram uma preciosidade que tinham ido buscar aos arquivos: A gravação de uma mensagem de Thomas Man ao povo alemão gravada em Janeiro de 1941 em Nova Iorque. Foi só um minutinho, até porque estava em alemão e a maior parte de nós não o compreende, mas aquela sensação de se estar a escutar história fica dentro de nós. Isto a propósito de que já aí está o filme A queda, sobre os últimos dias de Hitler. Pelas criticas que tenho lido vale a pena.
Hoje acontece mais uma efeméride triste: faz 51 anos que Catarina Eufémia foi assassinada. Agradecimentos a Daniel Arruda Troll Urbano pela lembrança.
We skipped the light fandango
turned cartwheels 'cross the floor
I was feeling kinda seasick
but the crowd called out for more
The room was humming harder
as the ceiling flew away
When we called out for another drink
the waiter brought a tray
And so it was that later
as the miller told his tale
that her face, at first just ghostly,
turned a whiter shade of pale
She said, 'There is no reason
and the truth is plain to see.'
But I wandered through my playing cards
and would not let her be
one of sixteen vestal virgins
who were leaving for the coast
and although my eyes were open
they might have just as well've been closed