Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

Antonio Lobo Antunes

Está aí (à venda a partir do dia 18) um novo livro de António Lobo Antunes, D’este viver aqui neste papel descripto, que é composto pelas cartas (aerogramas) que ele enviou à mulher quando estava na guerra colonial, entre 1971 e 1973. O JL, também já aí nas bancas, faz deste livro o principal tema deste seu número, publicando algumas cartas. De entre delas partilho com vocês aquela que eu considero a mais bela carta de amor que já li na minha vida.

Meu amor querido

Adoro-te minha gata de Janeiro meu amor minha gazela meu miosótis minha estrela aldebaran minha amante minha Via Láctea minha filha minha mãe minha esposa minha margarida meu gerâneo minha princesa aristocrática minha preta minha branca minha chinesinha minha Pauline Bonaparte minha história de fadas minha Ariana minha heroína de Racine minha ternura meu gosto de luar meu Paris minha fita de cor vício secreto minha torre de andorinhas três horas da manhã minha melancolia minha polpa de fruto meu diamante meu sol meu copo de água minhas escadinhas da Saudade minha morfina ópio cocaína minha ferida aberta minha extensão polar minha floresta meu fogo minha única alegria minha América e meu Brasil minha vela acesa minha candeia minha casa meu lugar habitável minha mesa posta minha toalha de linho minha cobra minha figura de andor meu anjo de Boticelli meu mar meu feriado meu domingo de Ramos meu Setembro de vindimas meu moinho no monte meu vento norte meu sábado à noite meu diário minha história de quadradinhos meu recife de Manuel Bandeira minha Pasargada meu templo grego minha colina meu verso de Höderlin meu gerânio meus olhos grandes de noite minha linda boca macia dupla como uma concha fechada meus seios suaves e carnudos meu enxuto ventre liso minhas pernas nervosas minhas unhas polidas meu longo pescoço vivo e ágil minhas palavras segredadas meu vaso etrusco minha sala de castelo espelhada meu jardim minha excitação de risos minha doce forquilha de coxas minha eterna adolescente minha pedra brunida meu pássaro no mais alto ramo da tarde meu voo de asas minha ânfora meu pão de ló minha estrada minha praia de Agosto minha luz caiada meu muro meu soluço de fonte meu lago minha Penélope meu jovem rio selvagem meu crepúsculo minha aurora entre ruínas minha Grécia minha maré cheia minha muralha contra as ondas meu véu de noiva minha cintura meu pequenino queixo zangado minha transparência de tules minha taça de oiro minha Ofélia meu lírio meu perfume de terra meu corpo gémeo meu navio de partir minha cidade meus dentes ferozmente brancos minhas mãos sombrias minha torre de Belém meu Nilo meu Ganges meu templo hindu minha areia entre os dedos minha aurora minha harpa meu arbusto de sons meu país minha ilha minha porta para o mar meu manjerico meu cravo de papel minha Madragoa minha morte de amor minha Karénine minha lâmpada de Aladino minha mulher.

publicado por maratonista às 20:23
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2005

flaches

Venho regresso a casa. O trânsito está impossível, um ciclista foi atirado para a berma por um automobilista apressado e uma camioneta com trabalhadores das obras pararam em frente a observar a cena toda. Lembro-me que antes de sair fui ao wc e por descargo de consciência certifico-me que tenho o fecho-éclair fechado, quando levanto os olhos e miro a fila ao lado da minha vejo a rapariga no BMW série 500 a olhar e a sorrir, vendo que reparei faz cara séria. Faço cara e envergonhado e olho em frente. No auto-rádio passam os Moody Blues, Nights In White Satin, e eu sinto que consigo relaxar. A fila avança, lentamente, e eu penso num escritor, fechado no seu quarto de uma pensão barata com o whisky, barato ele também, à espera da inspiração. Quem sabe, talvez que uma ave negra, pouse no parapeito da janela e bata com o bico no vidro provocando-lhe uma avalanche de ideias, palavras a bater na velha máquina de escrever. A mente divaga mas Paris já está a arder, desta vez por culpa própria. Chego a casa no auto-rádio passa Bob Dylan, Things Have Changed.

publicado por maratonista às 20:33
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Terça-feira, 8 de Novembro de 2005

Proximizade

Há um novo blogue na net: Proximizade</p>




 




Proximizade


 





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Contra o cultivo da insensibilidade cliquem aqui: Proximizade



publicado por maratonista às 11:42
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Segunda-feira, 7 de Novembro de 2005

o mais importante na paixão é o X

Que te dizer mulher?
que és única?
única serás mas não tão só-
mente quem disser tal.
eu sei, brinco com as palavras
mas as palavras arrastam-me
de ti e para ti
que já não sei o meu norte
eu que sou sul
mediterrâneo
água salgada a transbordar
d'um copo meio vazio
ponto
quero os teus olhos nos meus
a tua mão na minha
o teu corpo no meu
olha eu
olha eu outravez
outravez a puxar a língua
mulher
mulher
e repito, mulher
ponto final
recuo
não é final
apenas um ponto
não sei o vem depois
apenas um ponto
e tu na minha cabeça
a rodar, a rodar
carrocel que me deixa tonto
tonto eu sou
que me desdigo dizendo-me
só por ter caído no teu olhar
mulher
(olha eu a transbordar
nesta paixão insana
com razão de ser)
agora sim
ponto final

publicado por maratonista às 14:04
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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2005

a fábrica

Sete horas da manhã, a câmara estava, fixa, do outro lado da rua e filmava a entrada da fábrica. Operárias entravam pelo portão grande da fábrica. Sem excepção, todas levavam nas mãos a marmita com o almoço que metiam nas grandes tinas com água quente existentes no grande hall de entrada da fábrica. Ao meio-dia, quando se fizesse ouvir o apito da sirene a sinalizar o fim do período matinal de trabalho, pegariam nas marmitas com a comida ainda quente e, sentadas nos grandes bancos de pedra da frontaria da fábrica, almoçariam. Ao fim de alguns minutos tinha entrado toda a gente e a rua ficou semi-vazia mas a câmara continuava a filmar, fixa. Então, do portão grande da fábrica, saíu uma operária. Atravessou a rua, seguida pela câmara, ainda fixa mas passando do plano geral para um grande plano, e foi sentar-se num banco existente no passeio. O rosto mudo. A câmara largou a sua fixidez e rodou à volta da operária parando na sua frente e focando bem o seu rosto sem expressão. E uma lágrima rolou no seu rosto. A câmara fecha.

publicado por maratonista às 11:40
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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2005

tarde aborrecida

Falta de inspiração total para escrever qualquer coisa de jeito, e assim o blogue anda meio parado e desinteressante. Lá fora o vento sopra e uma chuva miudinha molha-nos o rosto, de resto um dia totalmente sem interesse. Ainda pensei deitar no passeio qualquer tipo de produto que ajuda-se as pessoas a escorregar e a darem um valente "bate-cu", a ver se isto animava, mas depois pensei que as pessoas não têm culpa nenhuma de eu estar com a neura, e o "sim-senhor" delas ainda menos até porque não é para aqui chamado. Outra hipótese era começar a dizer que tinha visto quatro ou cinco pombas do largo em frente a espirrar e depois a cairem mortas, pode ser que o pandemónio provocado fosse engraçado. Mas não, evidentemente. Era um bocado chato provocar isso. Acho que vou apenas passar a tarde aborrecido.

publicado por maratonista às 14:02
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