Segunda-feira, 13 de Junho de 2005

Obituário


Morreu um dos meus mais conhecidos conterrâneos: Álvaro Cunhal. Embora nunca tivesse pertencido ao seu partido, nem fosse simpatizante da causa, tenho que confessar a minha admiração por ele. A sua verticalidade e honestidade moral fazem-no sobressair no mundo da política portuguesa pejada de indivíduos mais próximos, por comparação, dos invertebrados, alforrecas. E que grande escritor se perdeu, porra, ao ganhar a política. Apesar de tudo penso que seria interessante por cá fora o muito que Álvaro Cunhal deve ter escrito ao longo dos tempos e que ainda não está publicado.

E morreu Eugénio de Andrade, beirão como eu. Enfim, esta segunda-feira é devastadora. Foi colega de trabalho do meu pai, antes do 25 de Abril, na chamada Federação das Caixas de Previdência onde ambos eram inspectores, o meu pai em Coimbra e Eugénio no Porto. E como a maior parte dos fazedores de letras deste país, um teso.
Do texto As Mães, a primeira frase:
Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido.

publicado por maratonista às 20:41
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2 comentários:
De Anónimo a 14 de Junho de 2005 às 10:43
Paz às suas GRANDIOSAS almas. Bj para ti e continuação de Boas Fériasfernanda
(http://apenasmaria.blogs.sapo.pt)
(mailto:apenas-maria@sapo.pt)
De Anónimo a 14 de Junho de 2005 às 02:25


junho 24, 2003
ADEUS - EUGÉNIO DE ANDRADE

Parque dos Poetas - Oeiras 2003

ADEUS

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.
lyra
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(mailto:notasdelyra@gmail.com)

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