Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

Subitamente

Subitamente o nevoeiro desceu sobre o mar, tornando aquela fria manhã de verão num outono antecipado. O grito das gaivotas ecoava ao longe e o marulhar das ondas estava em todo o lado. A areia molhada acariciava-me os pés nus enquanto passeava ao longo da rebentação. Cabeça limpa sem pensar em nada, gozando apenas o momento solitário. Reparo então que me vou aproximando de uma surfista. O fato de borracha, negro contrastando com os longos cabelos dourados, molhados , modelava um corpo de sereia. Sentada na areia com a prancha espetada ao lado, o olhar desafiador, colérico e bravio estava pousado no mar. Quando passo os olhos desviam-se pousando nos meus e aquele verde invadiu-me o pensamento antes sereno. Os deuses devem estar loucos penso. Que vantagem têm eles em vir desinquietar-me assim. Passo, dentes cerrados e olhar em frente. A areia fina transformada em cascalho já não acaricia os pés, magoa-os. Deito um último olhar para trás e vejo, ao longe, o seu vulto sentado. Continuo em direcção ao molhe, o nevoeiro começa a levanter-se e o verão recomeça mas algo se perdeu. A serenidade.

publicado por maratonista às 16:19
link | comentar | favorito
1 comentário:
De Anónimo a 2 de Maio de 2005 às 09:19
Bom dia Carlos! Não posso de deixar de te contar que a primeira vez que ouvi chamar "molhe" ao quebra-mar fiquei estupefacta! Quanto ao texto está lindo. Bjinhos e um bom diaAragana
</a>
(mailto:aragana@sapo.pt)

Comentar post