Segunda-feira, 27 de Dezembro de 2004

Um Natal diferente

Natália saiu de casa, fechando a porta à chave. Duas voltas como de costume que os tempos não estão para descuidos. Hoje 24 de Dezembro resolveu passar o Natal de outra maneira. Vivia sozinha. Depois do marido morrer os filhos ainda tentaram que ela viesse viver com um deles mas ela foi peremptória – nem pensar. Com 64 anos ainda estava com forças e energias suficientes para fazer a sua vida. Ia ver os netinhos quase diáriamente – eram a sua paixão. De resto levava uma vida normal de pessoa independente.


Enquanto seguia avenida acima reparou, por duas vezes, em deserdados da fortuna que se abrigavam do frio em cantos de prédios com pedaços de caixa de cartão a fazer-lhes de cama e cobertor e sentiu um angústia na alma. Eram gente que tinha amado, trabalhado e tido uma vida em tudo iguál aos outros, só que azares da vida os tinham atirado para esta situação. Quando ela e o marido eram novos também tinham passado privações e ela lembrava-se de que uma altura houve em que não tivesse sido uma providêncial ajuda amiga nem para comer teriam tido. Agora passou tudo, resta-lhe a memória.


Os natais passados com a familia embora com o prazer de estar com os filhos e netos deixa-lhe sempre um pouco de sabor amargo pela falta do seu marido. E assim este Natal decidiu-se por algo diferente.


Batiam as sete da tarde quando chegou ao largo da Misericórdia e entrou no casarão. Tirou o casaco, pendurou a carteira e juntou-se aos outros no grande salão. Este ano ia passar a consoada e o Natal a distribuir uma refeição quente aos desabrigados. Quando, com uma grande travessa nas mãos, se apróximou das mesas sentiu a alma mais aquecida. Estava feliz.

publicado por maratonista às 14:49
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5 comentários:
De Anónimo a 28 de Dezembro de 2004 às 19:04
O problema que todo o Ser Humano tem é não conhecer-se a si próprio... Continuação de Festas Felizes!pedevento
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De Anónimo a 28 de Dezembro de 2004 às 16:23
Pena k não hajam mais "natalias" e as k há por vezes só durem enquanto é natal...Daniela
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De Anónimo a 27 de Dezembro de 2004 às 22:24
sorrio...sofia
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De Anónimo a 27 de Dezembro de 2004 às 19:50
Por duas vezes, em circunstâncias muito especiais, também eu fui uma Natália. E garanto-te que não há Natal mais doce :-) E um dia, quando os "meus" velhinhos já não me sentirem a falta, voltarei a ser Natália. Obrigada pela recordação...
Beijoinconformada
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De Anónimo a 27 de Dezembro de 2004 às 17:47
Uma costela de Natalia todos temos.. beijo enormefernanda
</a>
(mailto:apenas-maria@sapo.pt)

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