Terça-feira, 28 de Setembro de 2004

Pró memória

Por vezes, porque assim nos obriga a memória, aqui posso escrever coisas antigas. Talvez seja uma maneira de exorcisar, que de esquecer não, talvez uma maneira de me dar a conhecer um pouco mais. Seja o que  seja eu estou aqui.


Coimbra, finais dos anos 60. Existia um grupo, se é que assim se lhe poderia chamar, de rapazes e homens ligados por uma actividade desportiva. A pesca à linha. O sítio de reunião/pesca era a “vala” assim chamada porque era um pequeníssimo afluente do Mondego que descarregava algumas águas, por vezes sujas dos esvaziamentos das piscinas municipais. Ao fim da tarde, aí a partir das cinco e meia, começavam a aparecer armados das respectivas canas, linhas e demais equipamentos para a pesca da boga principalmente. Os nomes que eu recordo são poucos, lembro-me do Arcanjo, do “barejeira” (que tinha uma sorte danada). Doutros lembro-me apenas de pormenores; um era juiz no tribunal de trabalho e cerca de metade eram alunos na Escola Industrial e Comercial Avelar Brotero (entre os quais eu) e com idades entre ao 14 e os 18. O que eu quero contar tem haver com uma das pessoas de que já perdi a lembrança do nome. Trabalhador, creio que operário, nervoso, sempre a puxar pelo cigarro, militante do Partido Comunista (era eu demasiado novo para saber os problemas que daí lhe poderiam advir) ele não era dos que se costumavam meter em certas confusões que advinham daquela necessidade que todo o homem tem em competir, seja de que maneira for, com outro. Defendeu-me uma ou duas vezes quando eu, com 14 anos mas já cheio de “sangue na guelra”, armava aos cucos e metia-me com rapaziada 4/5 anos mais velha, que com a tropa e a guerra colonial no horizonte eram perigosos de se picar. O que era engraçado é que eu pertencia aquilo que se poderia chamar a alta sociedade de Coimbra, com ligações à Universidade, e a outra rapaziada (meus amigos, malta dos bairros operários) eram “futricas” (palavra que em Coimbra designa as pessoas sem ligação à Universidade).


Pois ele tinha a vida ensarilhada e eu explico já porquê. Era casado mas havia problemas. Uma vez ela tinha fugido com outro fulano e ele foi atrás dela e trouxe-a de volta. Passados uns tempos ela tornou a fugir com outro tipo e agora o problema era outro. Havia, fiquei a saber mais tarde, grandes pressões sobre ele para que tomasse uma atitude de homem, de “macho”, que fosse ter com ela e lhe desse uma carga de porrada. Soube, também depois , que algumas dessas pressões viriam de gente ligada ao partido dele. Só que ele gostava muito dela e se havia algo que ele nunca faria era magoá-la. Acho que começou a ficar cada vez mais isolado em tudo o que fazia e acabou por desaparecer do nosso grupo.


Algum tempo depois soubemos a notícia. Tinha-se suicidado. Esperou, ao fundo do Parque por onde passava a linha da Lousã (não muito longe, talvez uns 300 metros, do sítio onde pescávamos), e quando passou o comboio, demanhãzinha cedo, pôs a cabeça na linha.


Ainda perguntamos ao juiz se ali não haveria coisa da Pide mas ele disse-nos que não, tinha sido mesmo suicídio.


Quando nos morre alguém, seja esse alguém quem for, penso que fazemos a nós, sempre, a mesma pergunta: será que fizemos o suficiente. Isto faz parte da nossa humanidade, o de nos interrogarmo-nos se fizemos, não o suficiente, mas tudo para que o nosso irmão/camarada não caísse.

publicado por maratonista às 19:47
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5 comentários:
De Anónimo a 1 de Outubro de 2004 às 19:18
E BOM REGRESSO AO TRABALHO! beijo enormefernanda
(http://apenasmaria.blogs.sapo.pt)
(mailto:fernandadias@sapo.pt)
De Anónimo a 1 de Outubro de 2004 às 17:03
Eu já perdi um amigo... num acidente estúpido de mota... não há palavras.Aragana
(http://www.aragana.blogs.sapo.pt)
(mailto:aragana@sapo.pt)
De Anónimo a 29 de Setembro de 2004 às 20:19
Por muito que nos culpabilizemos uma coisa é certa; quando alguém decide, realmente, pôr fim à vida não há nada que possamos fazer...
Beijoinconformada
(http://escrevoapenas.blogspot.com)
(mailto:inconformada@sapo.pt)
De Anónimo a 29 de Setembro de 2004 às 15:40
Juro-te, com conhecimento de causa e com base na amizade que nos une, que nada poderias ter feito.É uma decisão sem volta que só o próprio toma e nada pode ser feito pelos de fora. Fica nas mãos do destino o comboio não passar... beijo grandefernanda
(http://apenasmaria.blogs.sapo.pt)
(mailto:fernandadias@sapo.ptf)
De Anónimo a 29 de Setembro de 2004 às 12:04
Como diria o saudoso Emanuel Félix "Coisa tão triste" é perder um amigo, esses verdadeiros amigos que, penso eu, não nos abandonam apenas se elevam a um patamar mais elevado.
Quanto ao outro amigo é sem dúvida triste perder tão intenso texto como é o caso do FMI.
Oféliazinha
(http://www.ofeliazinha.weblog.com.pt)
(mailto:ofeliazinha_blog@hotmail.com)

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