Quarta-feira, 8 de Setembro de 2004

...

Batidas do coração ao ritmo do comboio.


Quando o comboio arrancou a rapariga que ia sentada junto à janela nem se deu conta, mergulhada que estava nos seus pensamentos. Tinha-a visto entrar no compartimento e dar uns bons dias meio sumidos como se o que se passava à sua volta só muito esbatidamente lhe chegasse ao pensamento. E ali continuava, encostada para trás com os braços cruzados e a cabeça pendendo para baixo, imersa no seu mundo interior. Perguntei-me o que lhe passaria pela cabeça, era um arapariga nova, 20 e poucos anos, uma pequena mala, que tinha colocado no espaço superior, para isso indicado, do compartimento era toda a sua bagagem. Finalmente levantou o olhar, e olhou pela janela, mas era um olhar sem ver, como se o que busca-se não fosse ver mas apenas descansar o olhar em algo diferente que os sapatos. Quando o comboio parou noutra estação ela levantou-se do lugar para espreitar para fora da janela como se espera-se algo acontecer e ali se manteve até o comboio partir de novo. E uma vez mais se foi sentar, encostada para trás e com os braços cruzados, sobronho franzido e olhar fito na biqueira dos sapatos. Um casal entrou no compartimento, provávelmente tinham entrado na estação que acabaramos de deixar, e, conversando alegremente, foram sentar-se perto da rapariga. Quando a rapariga reparou no casal eu comecei a perceber alguma coisa. Aquela alegria toda, que para outra pessoa poderia ser contagiante, para ela era algo de ofensivo. Depois da reação inicial voltou, apesar de tudo, à sua atitude inicial, quase de casmurrice, de braços cruzados e olhar fixo nos sapatos. Pouco depois o comboio começa a travar e a apitar repetidamente. Ainda estavamos longe da próxima estação e intrigado espreitei pela janela. A algumas centenas de metros estava um carro na linha e um rapaz junto dele. Quando o comboio parou, a uns escassos 20 metros do carro o rapaz veio ao longo do comboio, com dois funcionários da CP furiosos atrás dele, até parar junto à nossa janela. Olhou para a rapariga e disse:


Não vás, Fica. – ao mesmo tempo tirou um anel do bolso e mostrando-o à rapariga perguntou: - Casas comigo?


Palavra que nunca vi ninguém mudar tão depressa de expressão: És mesmo maluco! – exclamou enquanto se debruçava na janela para o beijar.


 PS- alguém se lembra do anúncio televisivo a um carro de marca francesa(julgo que o 205) parecido com a parte final desta estória..

publicado por maratonista às 14:23
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De Anónimo a 8 de Setembro de 2004 às 15:35
linda historia! adorei kem me dera k me acontecesse isto...mas a mim td é impossivel...beijinhos Carlos* *Tita
(http://www.titinhah.sapo.blogs.pt)
(mailto:titinhah@hotmail.com)
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