Terça-feira, 24 de Agosto de 2004

O ritual da chavena de chá

Era uma senhora de idade, sentada a uma mesa num canto do café. Tomava uma chavena de chá, pensativa. A vida passada desfiava na sua memória. No rosto as marcas da vida, umas boas outras más. E a chavena lá era levada à boca, como num ritual. E recordava o tempo das visitas a Peniche para ver o marido. A ida para o estrangeiro para se encontrar com ele depois da sua fuga. O viver anos e anos sem poder visitar a pátria, sem poder ver os parentes. Recordava o nascimento dos filhos, lá longe, e de como, numa firmeza de convicções em ruptura com a realidade, o marido os ia registar no consulado. Recordava a notícia da morte dos pais, primeiro um depois outro, e de não poder vir à sua terra visitar as campas. Recordava a morte do marido, consequência dos anos passados na prisão. De como, humilhantemente, o regime lhe escreveu a dizer que agora podia voltar. De como disse não até que uma manhã libertadora lhe devolveu o seu país. Recordava.


 E a chavena seguia o ritual e foi levada à boca mais uma vez.


 Então ouviu-se risos de crianças e um casal novo, com duas crianças, entrou no café e dirigiu-se à mesa do canto. E eu vi então aquele rosto transformar-se, com os olhos brilhantes e um sorriso lindo a senhora de idade levantou-se para beijar os netos.

publicado por maratonista às 11:08
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De Anónimo a 24 de Agosto de 2004 às 13:52
Obrigado Fernanda.Carlos
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(mailto:carlosrlopes@sapo.pt)
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